Para  o Seminário Escola da Terra, as Escolas do Campo abertas fortalecem um projeto de campo que contribui e ajuda a pensar a justiça climática e eventos climáticos extremos causados pelo modelo do agronegócio. 

Seminário foi realizado como parte do processo formativo iniciado no início do ano

O Seminário Escola da Terra reuniu mais de 180 pessoas durante os dias 31 de julho e 1 de agosto no auditório do Sindicato dos Empregados do Comércio de Francisco Beltrão e teve como programação 3 círculos de debates e 2 conferências, com os seguintes objetivos: 1) avançar no compromisso social contra o fechamento de escolas do campo; 2) refletir sobre a avaliação externa padronizada 3) Iniciar um debate sobre a cultura na formação dos educadores e educadoras 4) apresentar formas de interpretar a multisseriação 5) discutir as políticas neoliberais na sociedade e na escola pública.

No primeiro círculo de debate teve a presença de Ione Nakamura,  promotora agrária no Ministério Público do Pará, Renato Martins de Albuquerque, Defensor Público do Paraná- Núcleo da Infância e Juventude, Camila Guedes, da Executiva do Fórum Nacional de Educação do Campo – FONEC e Cleverton de Quadros, da Executiva da Articulação Paranaense Por uma Educação do Campo, das Águas e das Florestas – APEC. Para Ione, é necessário “reavivar os Conselhos Municipais e Estaduais para construção de Pactos para promoção da equidade e para o fortalecimento do direito à Educação para os povos do campo, das águas das Florestas” fazendo alusão a Nota Técnica  sobre as Diretrizes aos Promotores de Justiça do Estado do Pará para orientação aos Conselhos Municipais de Educação sobre o reconhecimento das escolas do campo, das águas e das florestas, escolas quilombolas e escolas indígenas como modalidades específicas e sobre as condições excepcionais  para seu fechamento. Segundo a promotora, o pacto pela educação do campo é um instrumento de enfrentar coletivamente entre diferentes instituições de justiça junto com movimentos sociais o tema do fechamento de escolas.

Para o Defensor Renato, os prejuízos com o fechamento das escolas do campo são múltiplos, com ênfase nas crianças e jovens envolvendo sair de sua comunidade e assim utilizar transporte escolar em longas distâncias e com poucas condições de estradas. Não são dadas as devidas importâncias, sendo necessário a participação efetiva da comunidade e de ter canais verdadeiros de contato com o Estado. 

A Defensoria Pública tem sido uma grande parceira da Educação do Campo, há alguns anos, tendo acompanhado casos coletivos de fechamento de escolas e intermediando processos de diálogo e escuta e refletindo coletivamente como o direito à educação segue sendo efetivado.

Camila, do FONEC, enfatiza que no Brasil foram extintas mais de 110 mil escolas do campo e apresentou as campanhas nacionais de combate ao fechamento de escolas, no caso na região sul e no Paraná a Campanha Escola é Vida na Comunidade. Para a representante, “A escola cria raízes na comunidade, traz movimento, formação participativa, organização coletiva, trazer vida para a escola é acessar o PNAE, movimentar associações, clube de mães com formação voltada para a agricultura familiar, fortalecendo a produção orgânica”.

Cleverton, egresso da Licenciatura em Educação do Campo e também advogado popular pelo Programa Nacional de Educação da Reforma Agrária (PRONERA) abordou a importância da apropriação das legislação, marcos e normativas conquistadas pelo movimento da Educação do Campo, ao mesmo tempo que demonstrou como secretarias municipais e a secretaria estadual tem atuado de maneira “pró-forme”, que tem culminado em mais fechamentos de escolas do campo municipais e estaduais. Para o integrante da Articulação, a consulta às comunidades deve ter um peso importante para que as escolas não sejam fechadas. 

Ao fim, o círculo teve seu objetivo alcançado com êxito, onde tivemos a partilha de uma  minuta para construir o compromisso com demais instituições e sociedade civil organizada, também o compromisso da Defensoria Pública com o não fechamento de escolas, bem como iniciativa da turma de educandos e educandas a elaboração da carta política pelo futuro da Educação do Campo que foi entregue às instituições e lideranças presentes no seminário.

A Educação do Campo e a Política de Avaliação Padronizada 

No segundo círculo de debate, com a presença de Walkíria Mazeto, Presidenta da APP-Sindicato, Janette Ritter, representante da União Nacional de Conselhos Municipais de Educação (UNCME) e Adecir Rodrigues da Silva  Presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Educação Pública de Francisco Beltrão e Itapejara D’Oeste (SINTEPFB), o objetivo foi refletir sobre a avaliação externa padronizada.

Ana Cristina Hammel, professora da UFFS e coordenadora do Programa Escola da Terra, abriu o círculo destacando  o histórico do Programa de Formação  Continuada para Educadores e Educadoras do Campo. Recordou a resistência do Programa durante o período de pandemia e de governos que negaram a educação pública e queriam o fim da universidade pública.

Walkiria Mazeto, sentenciou que a concepção da Educação Pública está em disputa bem acirrada, pois ela contribui para o controle social. No entanto, para a sociedade organizada e os movimentos sociais, a educação é utilizada para o avanço do desenvolvimento da sociedade e combate das desigualdades. A presidenta resgatou  que é necessário seguir lutando para  avançar a educação em todos os âmbitos da sociedade. Para Walkiria, uma grande tarefa é promover e organizar mais processos formativos de maneira presencial, pois estamos  praticamente só com processos de maneira online.

Ela ressalta que o fato de a classe trabalhadora ter acesso à educação, ocorreu por meio da luta de pessoas, que vieram antes, e à partir disso, passa-se a disputar a educação. A concepção de educação define se teremos uma educação do campo ou militarizada, uma educação pública de qualidade ou privatizada. “Barrar escolas do fechamento, ter um curso presencial não derruba o projeto neoliberal da educação”

O grande debate que é necessário fazer é sobre o IDEB, que implementou uma maneira de “incentivar” determinadas escolas e “punir” outras escolas, a partir dos índices e números alcançados. Discutir a avaliação nos processos formativos.

“A Educação do Campo é a defesa da diversidade. O campo é diverso e não cabe dentro da padronização. O IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Brasileira), teve sua função distorcida, pois seu resultado não é real, devido o ranqueamento e a promoção, de acordo com as notas, inverte a lógica, ao premiar o bom e pune as escolas com dificuldades, por isso se esconde as dificuldades da escola, criando uma situação irreal de sucesso”. Reflete a representante sindical

Janette Ritter da UNCME inicia sua fala sobre a importância dos Conselhos  Municipais de Educação. E do Conselho Estadual de Educação. Refletiu sobre a participação e a representação das comunidades rurais e do campo.

“Há dois conselhos municipais, se o conselho não é sistema ele é consultivo, não delibera e não normatiza, ligado ao sistema estadual. O estado do PARANÁ, ocupa um dos piores índices de educação municipal no Brasil, pois temem que o município seja onerado”. Ela cita o exemplo que no RS, apenas 9 não são sistemas. “No Paraná, apenas 29 são sistemas, dos 399 municipios”. Aponta a representante dos conselhos municipais.

Para Adecir, do SINTEPFB, que relembrou sua trajetória como estudante, professor e sindicalista da educação do campo.  Ele inicia questionando de “qual escola estamos falando?” É uma escola que tem direitos, uma concepção que se está em disputa. “Somos uma categoria que resiste, teimosa e que luta por uma educação de qualidade para as crianças do campo”.

Para o professor e sindicalista, uma das lutas em que o Sindicato tem se colocado é a do Livro Didático é um recurso, mas o maior recurso da escola do campo é o entorno, o espaço, de acordo com a diversidade de cada comunidade, por isso que a régua das avaliações externas não deve ser utilizada, pois ignora a diversidade dos diversos espaços ocupados pela escola do campo. É preciso sistematizar o conhecimento do campo a partir do campo, sem a hegemonia da educação urbana e a padronização das avaliações externas. Ele segue na reflexão sobre a necessidade de construir espaços permanentes de  diálogo entre escola e a comunidade, ao invés de partir de uma avaliação feita por um sistema. Nem todas as escolas possuem autonomia pra construir um currículo é preciso respeitar a comunidade, suas diferenças e saberes precisam estar no currículo escolar.

Ao fim de sua reflexão Adecir, conclui que é importante ver experiências de outros lugares, refletir sobre o currículo. A identidade é importante. Os educadores do campo criam uma identidade com a escola, devemos garantir que esses professores que se identificam com o campo possam permanecer no campo. O professor do campo precisa ter incentivo, também financeiro, para permanecer na escola do campo. 

Ao fim da exposição do círculo, Ana  enfatiza que o Escola da Terra é o único programa de formação para escola do campo (do Brasil?) realizado presencialmente, sob a perspectiva da pedagogia da alternância. Ana também salientou a parceria da ASSESOAR, que é essencial para a realização do curso, bem como a APP-SINDICATO, SINTEPFB, FETRAF que auxiliaram na estrutura e acompanhamento político e pedagógico para a realização do curso.

A cultura para a formação de educadores/as

No círculo de debate com objetivo de seguir debatendo a importância da cultura na formação dos educadores e educadoras, a participação de Tatiane Davoglio (Agente Cultural e fazedora de Cultura) e de Afonso Nilson de Souza (professor da Unicentro – Universidade Estadual do Centro Oeste) , tiveram como objetivo refletir sobre a cultura as escolas, os educadores e seu contexto.

Tatiane refletiu no início sobre quais professores já realizaram atividades com conteúdos culturais. Ela explica o que é produção cultural. Afirmando que: 

 “A cultura é ordinária, é preciso se reconhecer como fazedor de cultura, como agente cultural.”

A fazedora Cultura, com trabalho no setor há muitos anos, explica que há muitos editais culturais, há pessoas que vivem e sobrevivem de editais culturais. Ela provoca o público a construir um canal direto entre os profissionais da educação e os profissionais da cultura. Também afirma que o  Sudoeste tem 60 por cento da verba Aldir Blanc, edital municipal e edital estadual. 

Em sua provocação ela dá ênfase na nossa concepção de cultura “Quando pensamos em cultura, geralmente pensamos no produto final e não naquele que trabalha fazendo cultura, no processo. É necessário reconhecer, organizar, fortalecer: todos nós nas escolas do campo e da cidade fazemos cultura diariamente. Cobrar das prefeituras e dos agentes culturais. 

Afonso inicia sua abordagem na reflexão de que é necessário construir a arte de maneira profissional. O trabalho da cultura é algo profissional, uma indústria, um Setor que movimenta valores muito grandes na economia brasileira. Depois para e aborda  um entendimento equivocado: quem é o artista na sociedade? A escola incentiva ou mata a criatividade dos estudantes? É preciso deixar o preconceito de lado e formar artistas/ produtores de arte. “O PIB da cultura é muito grande. Quem ganha mais? O vendedor de carros ou o produtor de cultura?  A lei Rouanet rende 7 vezes o que é investido. O audiovisual rende 12 vezes. É um recurso que volta pra população.” Hoje existem  5.9 milhões de trabalhadores no fazer artístico. As empresas do setor cultural pagam até 31,5%  mais que outros setores da economia brasileira. A cultura é uma potencialidade. Aprender o ócio de acesso à cultura. ÓCIO CRIATIVO: estar no mundo para perceber o mundo. Como dar nota sobre a sensibilidade, sobre a criatividade. Ao fim o professor eefletiu sobre o cinema paranaense. Convidando a todos e todas a assistir e dar atenção ao cinema do estado. Todas as reflexões podem serem construídas com os jovens e crianças das escolas do campo, motivando-as a pensarem na cultura como possibilidade profissional.

1ª CONFERÊNCIA:  Os Desafios da Forma Escolar

O professor Salomão Hage, da Universidade Federal do Pará, ao iniciar sua conferência lembrou que, em 2002 (há 24 anos), seu grupo de pesquisa aprovou o projeto para investigar as escolas multisseriadas, iniciativa que resultou na publicação de diversas obras, entre as quais a que aborda a proposta da transgressão seriada.

Em sua exposição aprofundada, procurou focar em pontos

  1. A Urgência da Defesa dos Territórios e das Escolas: Sob o tema “Os Rios e as Escolas”, conclamou cada participante a se tornar guardião das escolas e dos rios, sublinhando a urgência de defender os territórios com o mesmo zelo com que se preservam as memórias e as florestas.
  2. Panorama Estatístico do Fechamento de Escolas no Brasil

Apresentando dados do texto enviado previamente a Ana, o palestrante revelou um cenário estatístico preocupante:

Fechamento de escolas: Nos últimos 25 anos, cerca de 110 milescolas do campo foram fechadas em todo o Brasil. Apenas no ano corrente, mais de 3 mil escolas encontram-se paralisadas (sem alunos, professores ou funcionários).

Escolas existentes: Atualmente, restam aproximadamente 50 mil escolas do campo no país.

  • Cerca de 60% delas possuem turmas multisseriadas.
  • 80% pertencem à rede municipal de ensino.
  • 44% são escolas de muito pequeno porte (atendem até 50 alunos).
  • 33% são escolas pequenas (atendem até 150 alunos), grande parte operando com turmas multisseriadas.

O palestrante alertou que, enquanto prevalecer a lógica do custo-benefício e da “otimização de recursos”, o processo de fechamento de escolas continuará. Afirmou categoricamente que a extinção das escolas acarreta a extinção dos próprios territórios, ameaçando sua sobrevivência em um futuro próximo. Explicou ainda que a escola contemporânea é resultado de um processo histórico articulado a fatores urbanos, econômicos, sociais e políticos — como a urbanização e a industrialização —, consolidando um modelo escolar massificado.

  • Precarização e Lógica Orçamentária: As turmas multisseriadas constituem uma realidade histórica global (em 2002, 90% das escolas do campo no Brasil eram multisseriadas). No contexto brasileiro, contudo, a multissérie tornou-se marca e consequência direta da precarização e de uma concepção reducionista do Estado, que a enxerga prioritariamente sob o prisma do corte de gastos.
  • O Imaginário Social Depreciativo: Persiste no imaginário social uma visão estigmatizada do pequeno agricultor e do sujeito do campo, frequentemente associada à figura do “Jeca Tatu” — um estigma reforçado até mesmo por discursos escolares tradicionais, nos quais o estudo era apresentado como a única via de saída da roça.
  • A Ilusão do Desenvolvimento Urbano: Sob a justificativa da “modernização”, o poder público promove o fechamento das escolas, rotulando as turmas multisseriadas como símbolo de atraso e fracasso. Fortalece-se a ilusão de que os centros urbanos são os únicos espaços de desenvolvimento, impulsionando o êxodo rural em direção às periferias e favelas das cidades.

Ao detalhar a construção da proposta da transgressão seriada, o professor salientou a necessidade de manter uma postura duplamente crítica e propositiva:

  • Denunciar e Anunciar

Denunciar: É indispensável denunciar o abandono, a precarização e o fechamento sistemático das escolas do campo.

Anunciar: É igualmente necessário anunciar a potência pedagógica, as possibilidades emancipatórias e a capacidade de resistência que as escolas multisseriadas demonstram cotidianamente, mesmo diante de graves adversidades.

Por fim, ressaltou que, embora hoje existam redes de apoio mais consolidadas e melhor estrutura em relação a períodos anteriores, o compromisso ético e político consiste em superar a perspectiva reducionista da multissérie, transformando-a em espaço vivo de resistência, transgressão e fortalecimento dos territórios rurais.

As reflexões conceituais apresentadas pelo Professor Salomão sobre a seriação e a multisseriação no ensino do campo. A partir da observação direta das práticas escolares, constatou-se a presença de um paradigma hegemônico: a escola seriada urbana de ensino como a única referência de qualidade educacional, ideal que habita o imaginário de professores, gestores, famílias e da comunidade em geral. Nas escolas rurais, essa lógica manifestava-se na tentativa de reproduzir o modelo da cidade dividindo salas multisseriadas com quadros e biombos, impondo ao docente a sobrecarga de multiplicar planejamentos, conteúdos e avaliações para atender a diferentes faixas etárias de forma estanque. Desse modo, percebeu-se que a comunidade almejava a seriação como solução para os desafios da multisseriação, sem notar que a própria estrutura seriada já estava presente, engessando as práticas pedagógicas e impedindo a multissérie de florescer.

A seriação opera fundamentada nos eixos da fragmentação do conhecimento, da hierarquização das etapas e da padronização dos ritmos de aprendizagem sob a lógica de uma idade, uma série e um conteúdo. Foi desse diagnóstico concreto que emergiu a proposta de transgressão, cujo propósito não é transgredir a multissérie, mas sim o modelo seriado urbano de ensino. A superação desse modelo enfrenta grandes barreiras devido à sua intensa regulação institucional, que amarra tanto os docentes quanto as próprias Secretarias de Educação. Ao se colocar como o padrão dominante e assumir o estatuto de ensino regular, a seriação passa a julgar como irregular ou ilegítima qualquer alternativa pedagógica, como as turmas multisseriadas, a Pedagogia da Alternância, a Educação de Jovens e Adultos ou a organização por ciclos. Mesmo diante da garantia legal expressa no Artigo 23 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a força cultural da seriação prevalece no cotidiano, fazendo com que qualquer formato divergente seja visto como um problema a ser corrigido.

Para desconstruir a naturalização desse sistema, o docente resgatou a origem histórica da seriação escolar, correlacionando-a aos princípios da administração científica desenvolvidos por Frederick Taylor no contexto da Segunda Revolução Industrial. Ao observar a produção manufatureira, Taylor substituiu o trabalho integral do artesão pelo controle rigoroso do tempo e pela fragmentação do processo produtivo em etapas lineares em uma linha de montagem sob supervisão. Ao buscar inspiração na fábrica e na busca por ganhos de produtividade e resultados, a escola moderna assimilou essa lógica taylorista, fracionando disciplinas, tempos e ritmos escolares. Compreender essa gênese industrial e mecânica da seriação torna-se, portanto, um passo fundamental para desorganizar as concepções tradicionais e construir práticas pedagógicas verdadeiramente integradoras e contextualizadas para a educação do campo.

Salomão explica que a seriação atua sobre a estrutura educacional por meio do controle do tempo e do movimento dos sujeitos. Ele aponta que todo esse sistema é construído tendo como fundamento a lógica da produtividade. Segundo o expositor, a seriação opera a partir de três princípios centrais: fragmentação, hierarquização e padronização do processo de ensino.

O palestrante ressaltou que a presença expressiva de docentes universitários no Movimento de Educação do Campo reflete uma intencionalidade de atuação. Salientou que o fato de muitos acadêmicos não residirem no campo não se constitui como um entrave; o ponto fundamental reside no estabelecimento de um diálogo efetivo e no sentimento de pertencimento ao processo e ao movimento de construção coletiva.

Em resposta às críticas sobre a suposta escassez de literatura científica a respeito de escolas multissérie, Salomão enfatizou a existência de um acervo consistente e de alta qualidade.

 Apresentando a coleção Cadernos da Escola da Terra: Semeando Saberes com os Tempos da Terra, composta por cinco volumes de formação continuada elaborados por pesquisadores e educadores do programa (entre os quais Marcos, Ana Hammel e o próprio palestrante).

Salomão aborda as redes de pesquisa e iniciativas nacionais como a Rede Multicampus: Noticiou-se a atuação de uma rede articulada de pesquisadores dedicados à investigação de temas como a precarização, o protagonismo das escolas multissérie no cenário global e as boas práticas pedagógicas.

O Programa Pronacampo: Destacou-se que a nova edição do programa contempla um eixo específico direcionado às escolas multissérie, fortalecendo a formação continuada de gestores e a produção de materiais didáticos.

Ao fim apresenta o Dossiê de Combate ao Fechamento de Escolas: Informou sobre a publicação de um documento com cerca de 400 páginas

2ª CONFERÊNCIA:  As Políticas Neoliberais no Campo e a desconstrução da Escola Pública

A Conferência iniciou com o professor Gaudêncio Frigotto falando sobre a forma como as ideias se espalham, se referindo à dinâmica inicial que trouxe algumas das suas obra à tona. Contou um pouco da sua história, oriundo do campo, de uma família de dialeto italiano.Trouxe a discussão sobre qual é o papel do professor de fato, segundo ele o neoliberalismo está liquidando os professores. Contou de como era a escola, meninos e meninas separadas, e a forma como a professora trabalhava o processo de alfabetização, com dificuldade em alfabetizar crianças. Concluindo com a provocação: qual é origem da escola? Seguiu tentando responder a pergunta: Sufistas foram precursores da escola, quem a criou foi a burguesia, a qual buscava acumular propriedades, sendo a escola um instrumento. Para o professor, o ideário da escola da burguesia era: Escola pública universal, igualitária e laica.  Hoje, a escola esconde a realidade da classe. 

Menciona o livro chamado “ideologia”, onde diz que em toda sociedade bem organizada deve existir 2 tipos de escola: uma para aqueles que vão organizar e dirigir a sociedade, e para outros, uma escola rápida destinada ao trabalho duro. A escola é dual.

Houve luta, organização e conquistas no surgimento das escolas do campo.  A burguesia faz uma ruptura entre o meio que temos de viver e separa a humanidade entre aqueles que têm meio de acesso à vida e os que usam como meio de exploração. O capitalismo desenvolve competições, produzindo mais do que consome. Capitalismo entra em crise quando surge o excesso. É sua essência.

Nesse contexto surge a escola como capital humano, até 1950 não se ouvia falar de escola sem falar de sociedade, e agora começa a ser referida a um capital a ser vendido no mercado.  Após as guerras, o mundo foi dividido em dois, mundo capitalista e socialista. Vindo a nova mudança, o neoliberalismo. O medo dos capitalistas era que os socialistas dominassem o mundo, e começaram a estudar. Muitos teóricos alinhados ao capitalismo apontavam que o recurso proveniente da população e do Estado deveriam ser investidos para ter retornos  A ideia era investir e ter um retorno. Gaudêncio cita o livro “O capital do século XXI” que apresenta como a pobreza ficou ainda maior. Os estados pobres não podem investir, alguns alunos não estudam, porque não podem parar de trabalhar. Não tem transporte, roupa. “O fim do capitalismo como conhecemos” livro de alguém que viveu a guerra, criou a expressão “capital humano”, essa visão das pessoas foi o primeiro movimento de desmonte da escola pública.  A partir dos anos 1980 o capitalismo entrou em crise, o governo mandava pouco. Fim da União Soviética em 1991 a Otan não poderia avançar e incluir países que eram da União. O que fez surgir a guerra da Rússia e Ucrânia. O capitalismo tenta levar a Ucrânia para essa linha capitalista acirrada, indo contra o combinado em períodos anteriores. 

Ao contextualizar o livro “Como mudar o mundo” onde o autor diz que o maior problema do século XXI é a descartabilidade do trabalho, cada vez menos mão de obra, ou seja, precisa de menos pessoas para trabalhar. Não há mais a possibilidade de integrar a todos, somente os mais competentes. O que aconteceu no campo, fazendo com que muitos trabalhadores fossem para as periferias das cidades. Vivemos a meritocracia, só tem acesso a saúde, educação, cultura, tem mérito. Ao mencionar trabalho de Francisco de Oliveira no livro “Anti-valor” mostra que Fernando Henrique Cardoso disse sobre não valorizar e construir o Estado da maneira pública e  

A “Qualidade total” do ponto de vista do capitalismo, o trabalhador faz o que se manda, faz como se manda, faz no menor tempo, sem reclamar do salário que recebe. Mandou gravar, afinal é isso que os professores estão vivendo, que sua maior expressão nesse momento é que o capitalismo é uma gata no cio, que incomoda, faz barulho…

Educar por competências, vai retirando a autonomia do professor. Nesse contexto, o professor ensina, mas não educa, ensina por prescrito; governo dá o que é para fazer e depois avalia o professor.   

Sintetiza que o capitalismo não é a solução, mas sim o problema. 

Na América Latina somos uma sociedade capitalista dependente, cita o livro: “Capitalismo dependente e classes sociais da América Latina”. Aqui as burguesias tomam um estado de assalto e vendem o país, não investindo em educação, tecnologia, compram isso. Modernização conservadora. Diz que o agronegócio diz alimentar o mundo, exporta para fora do país. O Brasil está entre a 8ª e 10ª economia do mundo. 

Em contrapartida, traz uma ideia de soberania alimentar, famílias que produzem seu próprio alimento, produzindo de tudo para si em sua propriedade. 

Por que destruíram a escola do campo? Porque para o agronegócio ela não é importante, ela dá custos.  Escola profissional do campo, para ter uma escola que desenvolva todas as dimensões dos seres humanos. Para que o menino do campo possa sair do campo e ter outras oportunidades. 

Durante todo o Seminário, mais de 180 pessoas participaram dos debates e reflexões. Foram Estudantes, professoras e professores, Militantes de movimentos sindicais e movimentos sociais, gestoras e gestores públicos, pedagogas e pedagogos de 38 diferentes municípios. Pato Branco, Francisco Beltrão, Cascavel, Laranjeiras, Curitiba, Realeza, Guarapuava, Rio bonito do Iguaçu, Erechim (RS), São Domingos (SC), Capanema, Coronel Domingo Soares, Coronel Vivida, Palmas, Marmeleiro, Pérola do Oeste, Chopinzinho, Tres Barras do Paraná, Pranchita, Nova Laranjeiras, Mangueirinha, Abelardo Luz (SC), Foz do Iguacu, Santo Antônio do Sudoeste, Dois Vizinhos, Santa Izabel do Oeste, Enéas Marques, Renascença, Erebango (RS), Boa Vista da Aparecida, Itapejara D’Oeste, Manfrinópolis, Barracão, Ipuaçu (SC), Clevelândia, Guarujá do Sul (SC), Benjamin Constant do sul (RS) e Ibaiti. 

Além das Organizações Populares e Movimentos Sociais e Sindicais organizadores do Seminário, como SINTEPFB, APP-Sindicato, ASSESOAR e FETRAF, estiveram presentes organizações do Fórum Regional do Sudoeste.

Além de inscritos de todas as cidades e regiões,  também a presença de professores de instituições de ensino superior e universidades públicas como IFPR Campus Palmas, IFC Câmpus Abelardo Luz, UFFS Campus Laranjeiras do Sul, UFFS Campus Realeza, UFFS Campus Erechim, Unicentro Campus Guarapuava, Unicentro Campus Chopinzinho, Unioeste Campus Francisco Beltrão, Unioeste Campus Cascavel, Unioeste Campus Foz do Iguaçu e UEM

Essa reportagem foi elaborada a partir da Sistematização realizada pelas educandas e educandos da Turma Escola da Terra Sudoeste. Nossos sinceros agradecimentos por esse trabalho que contribui para a partilha do conhecimento coletivo. 

Para acompanhar as gravações deste seminário acesse o canal da TV FONEC

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