De Londrina ao Sudoeste, falta de manutenção em vias do interior paranaense isola comunidades camponesas, prejudica o calendário letivo e asfixia a logística da agricultura familiar.

Rio Bonito do Iguaçu.

A defesa da educação no campo passa por uma série de fatores que vão além da sala de aula. A Assesoar, integrante da Articulação Paranaense Por uma Educação do Campo (Apec) e do Fórum Nacional de Educação do Campo (Fonec), tem reforçado a importância da manutenção das escolas camponesas como base para comunidades fortes e para garantir o acesso ao conhecimento por crianças e adolescentes. No entanto, um problema recorrente segue dificultando esse processo: as precárias condições das estradas rurais.

Na manhã da última segunda-feira, 4 de maio, moradores da Linha Piedade, no interior de Francisco Beltrão, enfrentaram novamente as consequências da falta de infraestrutura adequada. Após a chuva registrada no final da madrugada, trechos da estrada ficaram praticamente intransitáveis, impedindo a circulação do ônibus escolar e isolando as famílias.

A situação foi registrada pela agricultora familiar Francieli Reimann, que tentou levar a filha, Cecília, até a escola, mas não conseguiu concluir o trajeto. Em vídeo, ela relata as dificuldades enfrentadas logo nos primeiros quilômetros: “O meu velocímetro não marca, mas eu não sei se estou a 5 km por hora. Estou praticamente parando. Está um horror. Isso aqui está um sabão. Eu acho que tem mais ou menos uns 10 centímetros de puro lodo”, descreve.

Segundo Francieli, o problema foi agravado após intervenções recentes na via. “Tiraram todo o cascalho, bateram o rolo e não jogaram cascalho novo. Então, tudo isso aí é só barro”, afirma a agricultora. A consequência direta é a interrupção do transporte escolar, prejudicando o calendário letivo. “Na segunda-feira, o ônibus das crianças já não passou por aqui. Hoje também não passa”, relata.

A preocupação aumenta com a proximidade do inverno, período em que as chuvas costumam ser mais frequentes e intensas. “E quando chegar o inverno, que deve ser chuvoso e frio, as crianças não vão para a escola?”, questiona Francieli.

Além do impacto direto na educação, a precariedade das estradas asfixia a economia local. A região abriga produtores de leite e de hortaliças, além de trabalhadores de agroindústrias e frigoríficos que dependem do transporte diário. “Como a gente fica nesse descaso? Tem muito produtor leiteiro aqui, e quem depende de caminhão para buscar o leite?”, aponta.

O relato também evidencia riscos reais à segurança de quem trafega pelo local. Em trechos de declive, os veículos perdem o controle devido ao acúmulo de barro. “O meu maior medo é esse ‘descidão’, porque os caminhões patinam. Isso aqui é um lodo só”, descreve a moradora.

Cenas como essa não são isoladas e se repetem em outras comunidades e municípios do Paraná, como Rio Bonito do Iguaçu, Pérola D’Oeste, Wenceslau Braz e Londrina. Situações de abandono e precarização se acentuam quando o transporte escolar carece de qualidade, incluindo problemas em contratos entre prefeituras e empresas terceirizadas. Para a Assesoar, garantir estradas dignas é, antes de tudo, garantir que o direito de aprender e de produzir não seja interrompido pelo barro.

Campanha “Escola é Vida na Comunidade” defende a educação pública e o território

Perola D’Oeste.

A Campanha Escola é Vida na Comunidade é uma iniciativa da Articulação Paranaense por uma Educação do Campo, das Águas e das Florestas (Apec). Trata-se de um processo permanente de afirmação da importância da escola pública — seja no campo ou na cidade — com o objetivo central de fomentar a relação da escola com seu território, fortalecendo laços de confiança, solidariedade e construção coletiva.

A precarização das estradas rurais, no entanto, apresenta-se como um problema histórico para milhares de comunidades agricultoras, indígenas, quilombolas e camponesas no Paraná e no Brasil. Muitas dessas comunidades chegam a ficar dezenas de dias por ano sem acesso à escola devido à má qualidade das vias em períodos de chuva. Paradoxalmente, essas são áreas onde a produção de alimentos saudáveis e a proteção ambiental são prioridades.

A dupla penalização das comunidades

O modelo de gestão do Governo do Paraná, que foca excessivamente em índices de frequência e avaliações periódicas padronizadas, acaba por penalizar duplamente esses estudantes. Primeiro, pela ausência do investimento correto em infraestrutura e transporte; segundo, pela fragilização das escolas do campo que, diante da baixa frequência forçada pelo isolamento, acabam correndo o risco de fechamento.

Clima e Política Nacional

O agravamento da crise climática — fruto de um modelo produtivo baseado na degradação do solo, das águas e das florestas — torna essas ocorrências cada vez mais frequentes, impactando a renda, a produção de alimentos e a própria permanência das famílias na terra.

Neste cenário, surge o Novo Pronacampo (Política Nacional de Educação do Campo e das Florestas). O programa busca refletir e fomentar tecnologias sociais, práticas produtivas e infraestruturas ecologicamente sustentáveis nas escolas dos povos do campo. No Paraná, a implementação do Novo Pronacampo já foi iniciada com etapas de levantamento e planejamento de ações.

Para a Assesoar, a Apec e o Fonec, situações como a registrada na Linha Piedade reforçam a urgência de políticas públicas integradas. Garantir estradas dignas é essencial para assegurar o direito de ir e vir e o acesso ao conhecimento. Mais do que logística, trata-se de sustentar um projeto de campo baseado na vida, na saúde e na garantia de direitos.

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