Vindas de mais de 40 municípios, cerca de 1.500 pessoas participaram da X Festa das Sementes da Região Sudoeste do Paraná. Foi hoje, dia 23 de maio de 2013, no município de Salgado Filho. Eram agricultores e agricultoras de todas as idades com suas sementes para a partilha e dezenas de representantes de movimentos populares, sindicatos, cooperativas, escolas, universidades e órgãos públicos.

À medida que chegavam as caravanas dos municípios, centenas de espécies de sementes chegavam com elas. Cada participante com suas sementes para a festa da partilha. Chamou a atenção a diversidade e o número de espécies de plantas medicinais reunidas pelo grupo de mulheres de Salgado Filho.

Convidado pelo Fórum Regional de Entidades de Agricultores Familiares e Camponeses, José Maria Tardin, da da Escola Latino Americana de Agroecologia – ELAA, falou sobre as sementes.

As sementes são fundamentais na história da humanidade. Há 12.000 anos atrás, em alguns lugares do planeta, especialmente pela observação das mulheres, descobriu-se a germinação das sementes.

Este conhecimento mudou radicalmente a forma da humanidade viver no mundo, possibilitando que os grupos humanos crescessem e se fixassem.

A semente, então, não é uma mercadoria, é um legado do aprendizado humano na sua relação com a natureza. É conhecimento antigo de grupos humanos, que serviram a toda a humanidade, permitindo desenvolver a agricultura.

Cada semente é fruto da história de muitos povos, de diferentes partes do planeta, que foram conhecendo a natureza pela observação e pela prática do trabalho na terra. Assim é também com os animais domesticados, fruto de muito trabalho humano na história, que os escolheram, criaram, selecionaram. As sementes são patrimônio dos povos a serviço da humanidade. Não são mercadoria como faz o sistema Capitalista, transformando-a em objeto de controle privado das empresas, para obter lucro às custas do povo.

As sementes têm as impressões digitais dos trabalhadores do campo, não as digitais das empresas que procuram expropriar a humanidade, transformado-a em bem privado, expropriando a identidade milenar dos povos.

Quando o trabalhador compra a semente, quando valoriza a semente das empresas, está contaminando sua cabeça, está se contaminando e se transformando em objeto do capital, não apenas porque gasta seu dinheiro, mas porque passa a fazer parte da engrenagem e, muitas vezes, supervaloriza o produto das empresas e desvaloriza os esforços dos trabalhadores na história e dos trabalhadores atuais.

Nesta contaminação da consciência, há agricultores que tratam os venenos como remédio e não percebem que as sementes, os fertilizantes e as máquinas das empresas são a apropriação privada do esforço coletivo da humanidade.

Esta festa representa uma trincheira de luta por uma agricultura próxima da natureza, uma agricultura familiar, camponesa. Luta que ganha forma na agricultura ecológica, uma grande responsabilidade de promover a reconstrução ecológica da agricultura, livre de transgênicos e sem agrotóxicos.

Promover a organização comunitária para trocar as sementes, lutar por políticas de Estado para que promova formas ecológicas de produzir é parte da luta. Sem esta reconstrução, a vida digna e saudável estará em risco, já que os alimentos se transformam em meios de contaminação massiva do povo.

Os diversos tipos de plantas e animais que temos são garantia de que, no futuro, poderemos retomar o controle das sementes, melhorando o que os nossos antepassados já fizeram.

O presente foi garantido pela presença humana nas sementes e nos animais, sendo esta a força capaz de tomar a decisão de revolucionar e reconstruir as bases ecológicas da vida.

Onde estão as sementes que existiam. Assim como os povos originários foram sendo extintos, as formas de organização social foram tomando decisões baseadas não em fatores do atendimento das necessidades do povo, mas do interesse econômico de grupos privilegiados.

O desafio é organizar a nossa força para fazer o enfrentamento com as empresas que dominam a agricultura; juntar nossas forças para lutar pela reforma agrária que interessa ao povo; colocar o Estado no atendimento dos interesses da maioria da população.

Se isto não for feito, o campo vai se tornar um grande vazio e os povos do campo vãos ser derrotados, nós vamos ser derrotados. Hoje pesa sobre nossas comunidades e assentamentos este desafio, lutas que se colocam como base de uma nova sociedade, não fundada no capital. O desafio exige unificar nossas lutas com as classes populares das cidades ou seremos massacrados.

Fazer a luta exige ter clareza e desmistificar a tese de que a tecnologia das indústrias é necessária para superar a fome no mundo. Acontece que com a produção agropecuária mundial atual sobra comida. O problema não é a falta de comida mas controle capitalista da comida.

Por esta razão, o problema atual é como e para quem produzir, não há a necessidade de aumentar a produção ou a produtividade como querem as empresas. Neste sentido, há a possibilidade de tornar a agroecologia como forma de produzir suficiente para alimentar o povo, mas não é uma tarefa só dos agricultores ou de suas organizações. Há a necessidade do Estado investir em pesquisas, aspecto que deve fazer parte de nossa luta.”

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